Parque Municipal

Mais do que shows artísticos, manifestações culturais e ponto de comercialização de produtos típicos italianos, o Parque Municipal Ado Cassetari Vieira tem uma história que mostra o desenvolvimento social e econômico de Urussanga e sua participação no contexto histórico nacional e internacional.

Para mostrar esta realidade, a equipe Panorama entrevistou os descendentes dos primeiros proprietários do local e um dos filhos do Sr. João Gabriel Maccari- funcionário da Mineração Geral do Brasil que, por muitos anos, viveu no “Retiro Pamir”.

Da história

Quando Urussanga ainda era uma floresta a ser colonizada, coube à Família Fachin o lote de terras onde hoje se situa o Parque Municipal. O casal Domenico Fachin e Maria Zanin foram seus primeiros proprietários.

De Domenico, a posse da terra, por descendência, passou para Eduardo e Domênica e, por último, a Frederico, porém ainda com direito a usufruto de seus pais, e foi por estes então vendida.

Da mineração

Em 1939/40, quando um grupo de empresários residentes em São Paulo decidiu investir no ramo siderúrgico, enviou para Urussanga o Sr. João Gabriel Macari, para que este estudasse a oferta local de carvão mineral.

Durante algum tempo, Sr. João ficou hospedado no Hotel Gazzola. Posteriormente, com o grande potencial mineral existente na região e devido aos investimentos que a Mineração Geral do Brasil havia feito, foi adquirida a área de terra pertencente àfamília Fachin para a construção de uma residência para o Sr. João, bem como para os altos gestores da empresa, que frequentemente visitavam o sul do Estado.

Quem foi João Gabriel Macari

Nascido em São Paulo em 23 de junho de 1896, João Gabriel Macari era neto de libaneses que haviam emigrado para o Brasil. Com a saúde debilitada, seu avô foi desenganado pelos médicos e resolveu voltar para o país de origem, levando todos os familiares, inclusive o neto João. Mas João, que era afilhado de Namy Jaffet, voltou para São Paulo com seu padrinho.

O destino, no entanto, o levaria de volta ao Líbano na 1ª Guerra Mundial, quando a Turquia havia invadido seu país e ele, para ajudar, se alistou no exército libanês. Acabada a guerra, João volta para São Paulo e encontra seu padrinho Jaffet, proprietário de um grande grupo econômico. É convidado a trabalhar nas empresas do padrinho libanês e, como funcionário da Mineração Geral do Brasil (pertencente ao Grupo Jaffet), fixou residência em Urussanga por volta de 1941. Nesta época, Sr. João era casado com uma libanesa, com a qual tinha 3 filhos.

Como ela não se adaptou em Urussanga e preferiu continuar morando na cidade paulista de Santos, Sr. João morava sozinho no Retiro Pamir- nome que deu ao terreno adquirido pela companhia em que trabalhava.

Mais tarde, com o falecimento da esposa, Sr. João casou-se com Maria de Jesus Cavalcanti de Albuquerque- conhecida como Dona Gesa, que conheceu na cidade do Rio de Janeiro. Com ela teve 3 filhos: Rivaldo Antônio, Edson Luis e Hanney. Uma triste coincidência na vida do Sr. João, foi o fato de perder dois filhos com o mesmo nome - Hanney. O primeiro faleceu adulto no dia de sua formatura e era filho da 1ª esposa, e o segundo faleceu criança sendo filho da 2ª esposa.

Por que Pamir

O nome escolhido pelo Sr. João prenunciava as maravilhas que ele almejava para a sua vida e da comunidade onde vivia - Retiro Pamir. Segundo informações repassadas por seu filho Rivaldo Maccari, foi escolhido por ser um local situado na cordilheira do Himalaia, no Nepal, atualmente pertencente à China. Neste local, que fica entre a aridez do deserto, o clima carregado dos trópicos e o gelo das montanhas, floresce uma vegetação exuberante e é considerado por todos como um paraíso.

A intenção do Sr. João era criar um Retiro no Paraíso. Para que isso se tornasse realidade, foi ao Rio de Janeiro buscar alguém que entendesse de paisagismo e trouxe o melhor do Instituto Botânico do Rio de Janeiro- Burlemax.

Encomendou um projeto, trouxe Burlemax para Urussanga e transformou o local, inclusive importando árvores como a crivilha (que veio da Espanha) e os bambús (importados da Asia).

Aos poucos, foi acrescentando árvores frutíferas até então desconhecidas dos descendentes italianos residentes em Urussanga, como a carambola e o limãozinho (xinxim).

Seu paraíso havia sido construído, mas seu João não o desfrutava sozinho. No Retiro Pamir, crianças da comunidade disputavam partidas de futebol, pescavam nos açudes, desfrutavam do espaço disponível para brincadeiras e ainda se deliciavam com as frutas do vasto pomar. Mas as lembranças dos ciprestres de variadas formas, das deliciosas frutas, das belas flores, dos açudes, dos caminhos entre as frondosas árvores também estão na memória dos alunos do Colégio Rainha do Mundo que, para ir e voltar da escola, encurtavam caminho pelo Retiro Pamir. Aliás, o terreno onde hoje está construído o Colégio, informa Macari, foi uma doação da Mineração Geral do Brasil por intermédio do Sr. João, e era parte do Retiro Pamir.

No contexto mundial

O Retiro Pamir tornou-se um centro de decisões políticas da região. Isso, porque alí se hospedavam militares graduados, governadores, deputados e altos gestores do Grupo Jaffet, que na época era uma potência econômica a nível nacional. Alí, também se reuniam os proprietários e administradores das carboníferas que atuavam na região.

Sua importância tornou-se maior ainda na época da 2ª Guerra Mundial, quando comandantes das Forças Armadas alí estiveram. Para quem não sabe, afirma o ex-deputado Rivaldo Macari, Urussanga foi o maior exportador de carvão mineral para as Forças Armadas Brasileiras e para as Forças Aliadas na Europa. Isso, porque o Grupo Jaffet, na época, era o único que tinha navios próprios para o transporte de tão precioso minério e, como a maior parte do carvão que extraía era de Urussanga, pode-se dizer que o mineiro de Santana, de Rio Deserto e de outras localidades do município esteve presente na 2ª Guerra Mundial, enviando o combustível necessário para manter os soldados à frente das batalhas. Foi nessa época, acrescenta Rivaldo, o ápice do desenvolvimento de Urussanga, quando até bondinhos foram construídos para trazer o carvão da mina até as proximidades da Estação Ferroviária, de onde era levado para o Porto de Laguna.

Da transferência

Com o governo Revolucionário, o Grupo Jaffet, ao qual pertencia a área de terras do Retiro Pamir, foi literalmente confiscado e liquidado. Mas, prevendo a perca do Retiro, Sr. João utilizou seu prestígio junto às autoridades nacionais e conseguiu tirá-lo da massa falida do Grupo Jaffet.

Posteriormente, a área de terras foi vendida para o Consórcio Criciumense. No governo do prefeito Ado Cassetari Vieira, com um projeto de recuperação da identidade cultural italiana, o Retiro Pamir foi desapropriado para dar lugar a um complexo turístico-cultural, uma vez que Urussanga já promovia a Festa do Vinho, mas não tinha um local apropriado para tanto e muito menos para desenvolver as atividades culturais que cresciam no município.

No Parque Municipal, atualmente existe um anfiteatro (concha acústica), um centro de cultura para abrigar a escola de língua italiana e demais atividades culturais, um restaurante (San Gennaro), banheiros, a Praça D’Itália, Pista de Skate, Biblioteca Pública, o espaço para o Parque Infantil, e barracões para atender a crescente necessidade de espaços que visam a comercialização de produtos italianos, como artesanato, comída típica, produtos coloniais, vinhos, etc. Além de abrigar a Festa do Vinho, a Ritorno Alle Origini e o Motovinho, o Parque Municipal, que leva o nome do prefeito Dr. Ado, também serve de ponto para várias outras atividades.

Embora uma questão jurídica tenha colocado o Parque Municipal como o vilão da história recente do município, sendo o responsável por uma dívida enorme a ser paga, o sonho do Sr. João parece estar acima de todas as dificuldades, e não há ninguém que adentre o Retiro Pamir sem ter a sensação de estar realmente em um paraíso.

snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake snowflake